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A ameaça que vem do Norte

A eleição de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos gerou incerteza sobre os impactos para a economia mundial, em especial no que se refere a uma possível alta da taxa de juros. Além da possibilidade de renegociação de acordos comerciais internacionais e de aumento de protecionismo, que ameaçam a recuperação econômica global, um corte de impostos foi prometido na campanha o que, caso se consume, tenderia a aumentar o déficit orçamentário dos EUA.

Esse fator novo soma-se às tendências que vinham sendo verificadas. Há razões estruturais para elevação da taxa de juros dos EUA. Uma análise atenta da evolução do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos de 2010 a 2015 revela um comportamento cíclico, com alternância entre taxas de crescimento mais elevadas e mais baixas. Identifica-se, porém, uma tendência de alta desde 2013, conforme se constata no gráfico 1.

GRÁFICO 1: Taxa de Crescimento do PIB real dos EUA (% anual)

GRÁFICO 1: Taxa de Crescimento do PIB real dos EUA (% anual) - Blog da Selene

Fonte: FMI-IFS.

A variação dos componentes da demanda doméstica final vem explicando o crescimento do País. Conforme se verifica no gráfico 2, entre 2011 e 2015, a elevação da demanda doméstica final foi significativa e foi puxada pelo governo.

GRÁFICO 2: Componentes da Demanda doméstica final dos EUA (% anual)

GRÁFICO 2: Componentes da Demanda doméstica  final dos EUA (% anual) - Blog da Selene

Fonte: FMI-IFS.

Em virtude do crescimento econômico e da queda contínua do desemprego (vide gráfico 3), inclusive no primeiro semestre de 2016, surgiram preocupações no Federal Reserve quanto a pressões de salários e preços, que poderiam originar um processo inflacionário.

GRÁFICO 3: Número de desempregados nos EUA (em 1000)

GRÁFICO 3: Número de desempregados nos EUA (em 1000) - Blog da Selene

Fonte: FMI-IFS.

No mercado financeiro, também subsistem temores quanto a um aumento das taxas de juros na próxima reunião de 13 e 14 de dezembro. A divulgação de indicadores relativos à atividade econômica e aos preços vem, desde julho, repercutindo sobre os investidores, os quais formulam expectativas de mudanças na taxa de juros, resultando em oscilações nos retornos dos T-Bonds de 30 anos, conforme gráfico 4.

GRÁFICO 4: Retornos dos títulos de 30 anos do Tesouro americano

GRÁFICO 4: Retornos dos títulos de 30 anos do Tesouro americano - Blog da Selene

Fonte: http://www.tradingeconomics.com/united-states/30-year-bond-yield, com dados do Federal Reserve. Atualizado em 6/12/2016.

É bem verdade que o Federal Open Market Committee – FOMC fundamenta sua análise em um leque mais amplo de indicadores, tais como expectativas inflacionárias, spread entre taxas de juros das dívidas pública e privada, perfil da taxa de juros e comportamento da taxa de câmbio. Isto porque, os índices de condução da política econômica e o comportamento dos agregados monetários M2 e M3 nem sempre fornecem um guia seguro para a política monetária. Além disso, as recentes informações sobre preços e salários podem não fornecer evidências conclusivas de surgimento de pressões inflacionárias.

Sabe-se que a política monetária costuma ter efeito retardado. Por esta razão, é importante para o Fed implantar medidas no momento certo, evitando que a demanda agregada gere pressões sobre os preços. Em virtude dos recentes movimentos do câmbio e da antecipação pelo mercado de uma possível elevação da taxa de juros, é possível que boa parte dos ajustes já esteja ocorrendo.

Assim, se, por um lado, o diagnóstico do mercado é bastante sensível aos índices oficiais e já antecipa uma possível elevação das taxas de juros, por outro lado, a única chance de que isto não venha a ocorrer é que os ajustes já realizados tornem desnecessária essa atuação.

Como esse movimento poderá afetar as taxas de juros no Brasil? Uma elevação da taxa de juros dos EUA exige comportamento semelhante das taxas de juros no Brasil, mantidos constantes os demais fatores. Em 30 de novembro, o Banco Central reduziu a taxa Selic de referência para 13,75%, o menor nível em mais de um ano, embora superior às expectativas, considerando a prolongada recessão. A trajetória de queda, que começou na reunião de outubro, quando a taxa de juros foi reduzida pela primeira vez em quatro anos, é importante para a dívida pública. Contudo, se as expectativas do mercado relativas à elevação da taxa de juros dos EUA se confirmarem, a trajetória de queda da taxa interna precisará ser revista e o custo da dívida interna, que já se encontra em trajetória explosiva, aumentará.

#taxadejuros #DívidaPública #efeitoTrump

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